Oskar Schwermut não via exatamente
um problema em ser alemão, mas gostaria mesmo é de ser brasileiro. Nascido em
Munique, nunca entendera os delírios de seus colegas pela bratwurst, e nem
vibrava verdadeiramente pelo Bayern München, embora fingisse torcer para não
decepcionar sua família. Gostava mais do Flamengo, da bossa nova e da feijoada.
A propósito, uma das grandes
angústias de Oskar era o fato de Vinícius de Moraes ter dito que o uísque era o
melhor amigo do homem, era o cachorro
engarrafado. Se havia uma paixão alemã que era mantida por Oskar, era a
cerveja; mas não por ter tido a adolescência regada a noitadas com
Hacker-Pschorr, e sim por saber que a cerveja também era paixão nacional dos
brasileiros. Como poderia, portanto, ter Vinícius de Moraes dito que o uísque –
iguaria escocesa! – era o melhor amigo do homem? Isso Oskar não entendia.
Oskar não conseguia compreender
muitas coisas. Não entendia o que era saudade, porque a tradução que se dava a
“saudade”, em alemão, era “sehnsucht”, que mais tinha a ver com ansiedade.
Oskar não entendia por que os grandes compositores brasileiros falavam tanto
sobre “ansiedade”. “Chega de saudade”, aos ouvidos de Oskar, parecia “Chega de
ansiedade”, e o título da música dava a impressão de ser mais sobre alguém que
sofria de transtornos psiquiátricos do que sobre alguém que sofria pela
distância da pessoa amada.
Oskar também não entendia por que
era tão caro voar de Munique ao Rio de Janeiro, e nem entendia como poderia ter
nascido alemão, se se sentia brasileiro da cabeça aos pés. Sempre gostou de
bossa nova, mas se identificou mais com Vinícius de Moraes quando soube que
ele, caucasiano, havia dito que seria o “branco mais preto do Brasil”. Se assim
fosse, Oskar seria o alemão mais brasileiro do mundo. Havia até criado uma
palavra – em português, obviamente – para a sua condição sui generis:
brasilófilo. Era a junção de Brasil + filia, expressão latina que indicava
afeição, prazer, gosto.
Foi numa curta viagem de negócios a
Berlim que Oskar teve mais uma de suas grandes angústias. Lia qualquer coisa em
uma revista qualquer, enquanto degustava uma cerveja no centro da cidade, e viu
que o termo que tinha “criado”, na verdade, já existia. Brasilófilo era, na
língua portuguesa, alguém que era “amigo do Brasil”. Não ficou satisfeito, por
dois motivos: o primeiro, por não ter cunhado o termo; e o segundo, por não
considerar certo o significado da palavra. Ora, amigo do Brasil é quem vai de
férias ao Rio e compra uma miniatura do Cristo Redentor, pensava (em alemão,
naturalmente). Oskar sentia que sua brasilofilia consistia em ser, não só amigo
do Brasil, mas brasileiro por dentro.
A descoberta arruinara seu dia. Oskar,
sentado numa das mesas daquele simpático barzinho, fitou a Berlim que crescia
diante dos seus olhos, ao sol poente, enquanto levava à boca mais um gole de
cerveja. Sentiu, então, uma pontada no peito: uma dor excruciante ardeu-lhe o
coração e o fez derrubar a caneca de cerveja, que se espatifou no chão e lhe
causou uma intensa vertigem.
Voltou a si, apertando os olhos e
pensou: a descoberta arruinara seu dia, não fosse ter conhecido Lygia.
Após sua intensa e breve cardialgia,
Oskar notou a caneca intacta em cima de sua mesa, um violão apoiado na cadeira
ao lado e uma moça morena, numa mesa próxima, fitando-lhe atentamente. Não
possuía a beleza das mulheres do século XXI, fabricadas ao rigor dos ditames da
moda, mas tinha, de fato, beleza ímpar, e olhos tão cativantes que o fizeram
ignorar completamente o fato de seu copo de cerveja estar intacto e a inusitada
presença de um violão ao seu lado.
A distinta mulher terminou o drink
que tomava, levantou-se e se dirigiu até a mesa de Oskar, num caminhar
despretensioso que o lembrou do recuo das ondas do Atlântico antes da
rebentação, muito embora jamais o tivesse visto pessoalmente. “Herr Schwermut,
sim?”, ela disse, “Sou sua fã número um”, e se sentou. Ousada, pediu ao garçom
mais um drink e comentou que se chamava Lygia, que há muito tinha vontade de
conhecê-lo, não podendo perder a oportunidade de tê-lo encontrado ali sozinho,
e que adorava suas canções.
Oskar não entendeu.
Passava mesmo o dia escrevendo, mas não eram canções. Como era programador de sotfwares em uma empresa no subúrbio de Munique, inevitavelmente passava o dia escrevendo códigos. Alguns até rimavam, na sua distraída opinião... Mas não, não eram canções. Tampouco podia Oskar fingir que não era com ele que estavam falando. Lygia dissera: Herr Schwermut. Era ele, pois não era um nome muito comum e, se ela o reconhecera à distância, é porque o conhecia fisicamente. Não poderia estragar o dia daquela mulher, principalmente depois de ter ela abrilhantado o seu. “Pois bem”, pensou ele, “Herr Oskar Schwermut, compositor e poeta”.
Conversaram, pois, por algumas
horas, e consideraram inapropriado continuar naquele boteco que ficava
justamente debaixo de uma ponte, por onde passava o metrô, sobretudo sabendo
que havia, a duas quadras dali, um intimista piano bar, quase sempre vazio,
quase sempre aberto, e cujo dono fora colega de liceu de Oskar. “Um momento”,
disse Lygia, antes de levantarem. “Toque qualquer coisa no seu violão, para
mim”. Suspirou, segurou a mão de Oskar e, com aqueles olhos que nele meteram
mais medo que um raio de sol, pediu, “toque uma de suas músicas para mim”.
Sobreveio o pânico, já que, para Oskar, era tudo uma farsa. Suou frio, pegou
trêmulo o violão, gaguejando ao assentir com o pedido e, por fim, desistiu.
Disse a Lygia que tudo era mentira, que ele não poderia ser Herr Oskar
Schwermut, compositor e poeta, e que não sabia e nem nunca soube tocar violão.
“Deixe de graça”, ela sorriu, “e
toque logo. Quem sabe, empunhando o violão, você não aprende?”
Oskar riu, sem graça, e empunhou o
violão. Nunca sentira o macio toque do mogno em seu colo, e nem seus dedos
jamais haviam tamborilado pelo braço de rosewood
de um bom violão. Sentiu-se nervoso, e tocou. Sentiu a voz tremer, e cantou. “A insensatez que você fez... Coração mais
sem cuidado!”. “É uma de minhas preferidas”, disse Lygia, “parabéns, é uma
bela canção”. Levantaram-se e, com sorrisos e olhares cada vez mais tortos,
foram ao piano bar.
Lygia parecia não sucumbir à
imensidão de metropolitans que tinha
bebido, mas apenas parecia. Os sintomas da ebriedade, como o trocar de passos
da língua, o insustentável peso das pálpebras e as mãos e braços já levemente
dançantes, não se manifestavam em Lygia, pois era fina demais para isso. A sua
embriaguez, a embriaguez da dama, era ainda no mundo das ideias. Pensava coisas
que não pensaria sóbria. Fitava atentamente os dedos de Oskar, que horas antes
tinham dedicado a ela uma das mais belas canções que conhecia, e imaginava inevitavelmente
aqueles dedos desbravando os botões de sua camisa, caminhando pela infindável
relva de sua nudez e, enfim... Fitava, também, os lábios de Oskar, que não
paravam de se mexer, e, embora não prestasse atenção em uma só de suas
palavras, seguia atentamente o movimento de abrir e fechar da boca,
desejando-a. Eis que, na essência de sua feminilidade, a embriaguez se
confirmava, mesmo sem que seus sinais escapassem pela chaminé do corpo.
Oskar, por outro lado, já sorria
demais. Trocara a cerveja pelo uísque, e não cansava de lembrar um tal saudoso
amigo seu, que lhe dizia sempre que o uísque era o melhor amigo do homem, que
era o cachorro engarrafado. Gritava: “garçom! Mais um cachorro, por favor!”. E
bem que Lygia ouvira, em outros cantos e becos, que Herr Schwermut era
bem-humorado. O uísque, além de cachorro engarrafado, é o combustível dos anjos
e demônios que residem em cada um de nós. Oskar, ao lado de Lygia, só possuía
anjos. Os demônios de sua melancolia haviam desaparecido, e, entre uma dose e
outra, pensava se a dor que sentira no peito horas atrás não havia sido o
efeito colateral de algum exorcismo que lhe teria tirado a melancolia e a
frustração. “Não importa”, pensou, “Mais um cachorro!”.
A tristeza da bossa nova é uma
tristeza diferente. Arrisco dizer que não é tristeza, e que só pela
impossibilidade de criar nova palavra que se adequasse ao sentimento que a
bossa inspira é que os criadores do ritmo falaram tanto de tristeza. Mas não
pode ser tristeza. A tristeza afasta, pede solidão; a tristeza é uma moça ensimesmada
no canto de seu quarto, aos prantos, no desespero do desamparo. A bossa não
provoca nada disso: a bossa nova também está no canto de um aposento, mas o
aposento é o bar ou a casa de um amigo que hospeda a noite de sarau; naquele
canto, um homem sussurra ao pé do ouvido de uma dama, “Que dentro de seus
braços, os abraços serão milhões de abraços”, e não se furta de lhe acariciar a
coxa com a ponta dos dedos enquanto fala, sem pudor e, ainda assim!, sem
vulgaridade. Essa é a bossa. É dançar junto, é sentir saudade e dizê-lo
matando-a.
Oskar e Lygia estavam no canto do
bar, ao som da melhor bossa nova, e enquanto Oskar sutilmente sobrevoava o
antebraço de Lygia com as pontas de seus dedos, confabulava com ela planos
mirabolantes, sussurrando-lhe e encostando a boca levemente em sua orelha.
Dizia-lhe que iriam juntos para o Rio, e que lá se embebedariam na beira da
praia de Copacabana no primeiro dia em que chegassem, como verdadeiros
turistas, mas que só bastaria um dia para que virassem cariocas. No segundo
dia, ouviriam samba de raiz no bar de Alfredinho, e iriam ver um filme qualquer
no Cine Odeon, como verdadeiros cariocas. Lygia ria alto, tocava o rosto de
Oskar e o chamava de bobo! Entreolhavam-se, atentamente, com os corpos cada vez
mais unidos pela opressão da música, a opressão da bossa nova, que proibia a
separação dos corpos, que editava determinantes leis metafísicas e musicais que
proibiam que dois corpos, unidos pelo desejo e pelos versos sobre o mar, se
separassem.
Lygia mirou Oskar detidamente e, com
um sorriso monalístico, retirou da bolsa um pedaço de papel e um lápis de olho.
Anotou no papel alguns pares de números e o pôs na mão de Oskar. “Tenho que ir”,
disse-lhe. Deu um beijo em sua face, próximo à boca, deixando para trás a leve
marca do batom, e pediu para que lhe ligasse. Oskar protestou, amorosamente,
para que ela ficasse, recebendo de volta tão somente um sorrido luxurioso e um
tchauzinho longínquo. “Adeus”, murmurou para si, enquanto olhava o pedaço de
papel e o número de telefone, com a doce caligrafia de Lygia.
Oskar guardou o papel, deixou em
cima da mesa dinheiro suficiente para sanar as bebidas e as gorjetas, abandonou
misterioso violão em uma cadeira próxima e se evadiu para a tormenta dos dias
seguintes. Vagou pelas ruas de Berlim e, do bar até o hotel, não parava de
pensar: quem seria esta tal Lygia? Inebriado pelo perfume e pelas mentiras que
trocaram no canto do bar, sequer pensou nos absurdos que ocorreram, não
refletiu sobre seus poemas, sobre suas músicas, sobre sua repentina aptidão musical;
só refletiu sobre Lygia.
No dia seguinte, Oskar voltou ao
piano bar. Ainda era cedo, mas, conhecendo o dono, pediu para sentar-se ao
piano e, confortavelmente, lembrar a noite anterior e tentar ligar para Lygia.
Tentou uma, duas, três vezes, sem resposta. Na quarta ligação, ouviu uma voz de
mulher. “Lygia? É Herr Schwermut!”. Decepção. “Nein... Deve ser engano, não há nenhuma Lygia aqui. Bom dia”. Oskar
debruçou-se nas teclas do piano, desolado: fora engano! Saiu do bar, caminhou
lentamente até um lanchonete, pediu um sanduíche e uma cerveja, e lá ficou.
Sem entender muito ou quase nada do
que se passara no dia anterior, Oskar desistiu de refletir. Passou a ignorar o
violão, as composições, os poemas, e até mesmo a sua inesperada irreverência ao
pedir cachorros ao garçom, algo que evidentemente não era muito comum de sua
parte. Só não parava de pensar em Lygia. Quem seria? Será que a veria de novo?
Oskar sentiu uma pontada no peito,
uma dor que o deixou sem ar, uma ardência lancinante, que o fez largar seu
copo, estilhaçado em mil pedaços no chão da lanchonete. Respirou fundo, sentiu
a dor lentamente se esvair e se endireitou na cadeira. Não entendeu o que
acontecera. Depois de tudo, não queria entender nada do que acontecera ou
pudesse ter acontecido. Olhou ao redor e, não reparando nada mais digno de nota,
percebeu a presença de uma folha de papel em cima de sua mesa, que dizia: “Eu nunca sonhei com você. Nunca fui ao
cinema. Não gosto de samba, não vou a Ipanema. Oskar Schwermut”.
Amassou o papel e voltou então, Herr
Schwermut, a sua interminável melancolia.
Paulo Lindoso
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