domingo, 3 de novembro de 2013

E a morte natural?

Em seu romance “A vida está em outro lugar”, o escritor tcheco Milan Kundera desenvolve uma breve digressão baseando-se na premissa de que “não é indiferente saber de que maneira um homem encontrou a morte e em que elemento”. Para ilustrar seu raciocínio, o eminente romancista lança mão de vários exemplos: cita a queda de Ícaro e seu fatal encontro com a terra, que nos oferece “a imagem da discórdia trágica entre o ar e a gravidade, entre o sonho e o despertar”; lembra Giordano Bruno, que, segundo ele, só poderia morrer pela fogueira, para que sua vida se transformasse “na incandescência de um sinal, na luz de um farol, uma tocha que brilha ao longe no espaço dos tempos”; e, ao final, alude à Ofélia de Hamlet, que só poderia perecer na profundidade das águas, eis que esta se confunde com a profundidade da alma humana, sendo a água o “elemento exterminador daqueles que estão perdidos em si mesmos, no seu amor, nos seus sentimentos, na sua demência...”. [1]

A divagação de Kundera não parece ser desprovida de sentido. Com efeito, podemos encontrar aqui mesmo em terrae brasilis quem se amolde aos seus termos. É o caso de Gonçalves Dias, o “poeta nacional por excelência”, que morreu afogado após o naufrágio da embarcação que o trazia de volta ao Brasil, depois de ter tentado tratar sua saúde na Europa, sem muito sucesso. Conta-se que ele vinha acometido por uma grave doença no peito, num permanente conflito entre o corpo enfermo e o espírito pleno, temendo que Deus permitisse sua morte antes do retorno a sua tão querida terra, até que a água veio liquidar sua inquietude. 

Entretanto, apesar de louvável, a digressão guarda em si o grave incômodo de parecer aplicável unicamente às hipóteses de suicídio ou de grandes tragédias. Resta a pergunta: e a morte natural, que nos diz? A morte pela própria doença, que significação teria? Qual é o sentido do ataque cardíaco de Drummond, apenas doze dias após a morte da filha?  Ou do momento em que Toquinho tentava acordar Vinicius de Moraes, caído numa banheira, dando os últimos longos suspiros que o edema em seu pulmão lhe permitia?

Sem a elegância e o lirismo do autor de “A insustentável leveza do ser”, arrisco dizer que a morte natural traz em si a ideia de completude, de um estágio existencial em que não há mais necessidade de nenhum complemento. Certo seria sequer falar em morte, pois, a todo contrário, trata-se de uma afirmação da vida. Os olhos só se fecham voluntariamente (e para sempre) quando a última vista de que dispõem é de uma harmonia até então desconhecida, numa epifania reveladora de que a vida existe e de que se viveu. E a imagem que a morte natural passa para nós, que ficamos, é de que a vida, tal qual uma obra, pode estar contida em si mesma, podendo ser, por si só, o bastante.

Dizem que as últimas palavras do grande filósofo Immanuel Kant foram “Es ist gut”, que podem ser traduzidas como “É o bastante”. Ao que parece, ele estava se dizendo satisfeito de uma mistura de água e vinho que seu secretário Wasianski lhe oferecia, mas também – e por que não? – talvez houvesse acabado de compreender que a vida basta. E talvez tenha sido isso que os suspiros do Poetinha queriam dizer a Toquinho - aliás, como viveu aquele homem! Da mesma forma, o coração de Drummond (que com o da filha fazia um só), após alguma reflexão, talvez de repente tenha se apercebido de que a vida é assim, e que a vida é tudo. 

Ou talvez (não posso descartar essa possibilidade) toda essa minha especulação não passe de uma ideia torta. Não faz mal: se essa vida é o bastante, certamente é por guardar infindáveis mistérios que talvez jamais iremos desvendar.

Gabriel Coelho


[1] KUNDERA, Milan. A vida está em outro lugar. 1ª ed. São Paulo : Companhia das Letras, 2012, p. 312. Para ler na íntegra o trecho em comento, clique aqui.



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