domingo, 10 de novembro de 2013

Como se perde a fé

Quando criança, todas as noites antes de dormir eu costumava rezar pelo menos três orações: a do Pai Nosso, a da Ave Maria e a do meu anjinho da guarda, que eu mesmo tinha inventado. Não lembro exatamente, mas acredito que a origem dessa minha oração remonta a um certo dia em que minha mãe, ao vir me dar o beijo de boa noite, perguntou se eu já havia "pedido a proteção do meu anjinho da guarda". Fiz então uma prece ao meu anjinho naquele mesmo momento, e passei a repeti-la todos os dias por muito tempo dali em diante.

Meu anjinho da guarda me proteja, proteja meu pai, minha mãe, meus tios, minhas tias e a todas as pessoas do mundo”. Era essa minha pequena oração, que eu fazia religiosamente todas as noites. Era inclusive a que eu mais gostava, pois das outras duas eu pouco entendia, havia apenas decorado. Já da minha eu entendia cada palavra, e sentia que ao fazê-la eu jogava uma rede de proteção que cobria o mundo inteiro, que dali pra frente nada de mal poderia acontecer a ninguém. 

O problema teve início quando eu comecei a achar que a expressão “todas as pessoas do mundo” tinha um valor inferior aos nomes que eu fazia questão de mencionar. A minha intenção era de que realmente todas as pessoas do mundo tivessem proteção, mas me pareceu que aqueles que eu falava o nome estavam mais protegidos. Sendo assim, eu tinha que acrescentar muita gente à minha lista.

Meu anjinho da guarda me proteja, proteja meu pai, minha mãe, meus tios, minhas tias, meus irmãos, minha irmã, meus primos, minhas primas, meus avós e a todas as pessoas do mundo”. Fiquei satisfeito com essa versão até me apaixonar por uma menina do colégio, e então me pareceu absolutamente necessário colocá-la naquele rol de privilegiados. E depois lembrei de meus amigos, que eram tão importantes para mim, logo não mereciam ficar na “semi-proteção” junto com todas as pessoas do mundo.

Meu anjinho da guarda me proteja, proteja meu pai, minha mãe, meus tios, minhas tias, meus irmãos, minha irmã, meus primos, minhas primas, meus avós, a fulana, meus amigos e a todas as pessoas do mundo”. Daqui pra frente, só de pensar em fazer minha oração eu já sentia um cansaço antecipado. E como eu a fazia logo antes de dormir, era realmente penoso: eu tinha muito sono, mas a proteção de toda aquela gente ainda dependia do meu anjinho da guarda. 

Por essa mesma época eu também comecei a perceber que as pessoas morriam invariavelmente, apesar da minha oração. Fiquei terrivelmente decepcionado, não conseguia acreditar que meu anjinho da guarda pudesse falhar. Lembro bem de ter pensado (na busca de uma justificativa para os deslizes do meu anjinho) que a proteção talvez só funcionasse se todas as pessoas do mundo fizessem a minha oração antes de dormir. Imaginem se eu tivesse me convencido disso pra valer, poderia ter criado uma nova religião!

E foi então que aos poucos eu fui cedendo cada vez mais à preguiça e deixando de fazer minha pequena oração. O temor de que alguém pudesse morrer pela minha omissão já não tomava conta de mim. “Vai acontecer de qualquer jeito...”, eu pensava, todo triste. E estava assim até que um dia simplesmente parei de fazer qualquer oração. 

Hoje sinto falta do meu anjinho da guarda. Recentemente, com os problemas da vida, tentei conversar um pouco com ele antes de dormir, mas tive a estranha sensação de que ele não estava me escutando, de que eu estava simplesmente pensando comigo mesmo. Percebi então que agora mais do que nunca eu estava sozinho nesse mundão de meu Deus, e que se era pra acreditar em algo, só me restava acreditar em mim. Logo eu, tão falho e incapaz de proteger quem quer que seja nessa vida desvairada... 

Parece que não sou muito diferente do meu anjinho da guarda.

 
Gabriel Coelho

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