Quando criança, todas as noites antes de dormir
eu costumava rezar pelo menos três orações: a do Pai Nosso, a da Ave Maria e a
do meu anjinho da guarda, que eu mesmo tinha inventado. Não lembro exatamente,
mas acredito que a origem dessa minha oração remonta a um certo dia em que
minha mãe, ao vir me dar o beijo de boa noite, perguntou se eu já havia
"pedido a proteção do meu anjinho da guarda". Fiz então uma prece ao
meu anjinho naquele mesmo momento, e passei a repeti-la todos os dias por muito
tempo dali em diante.
Parece que não sou muito diferente do meu anjinho da guarda.
“Meu anjinho da guarda me proteja, proteja meu
pai, minha mãe, meus tios, minhas tias e a todas as pessoas do mundo”. Era essa
minha pequena oração, que eu fazia religiosamente todas as noites. Era inclusive
a que eu mais gostava, pois das outras duas eu pouco entendia, havia apenas
decorado. Já da minha eu entendia cada palavra, e sentia que ao fazê-la eu
jogava uma rede de proteção que cobria o mundo inteiro, que dali pra frente
nada de mal poderia acontecer a ninguém.
O problema teve início quando eu comecei a achar
que a expressão “todas as pessoas do mundo” tinha um valor inferior aos nomes
que eu fazia questão de mencionar. A minha intenção era de que realmente todas
as pessoas do mundo tivessem proteção, mas me pareceu que aqueles que eu falava
o nome estavam mais protegidos. Sendo assim, eu tinha que acrescentar muita
gente à minha lista.
“Meu anjinho da guarda me proteja, proteja meu
pai, minha mãe, meus tios, minhas tias, meus irmãos, minha irmã, meus primos,
minhas primas, meus avós e a todas as pessoas do mundo”. Fiquei satisfeito com
essa versão até me apaixonar por uma menina do colégio, e então me pareceu
absolutamente necessário colocá-la naquele rol de privilegiados. E depois lembrei
de meus amigos, que eram tão importantes para mim, logo não mereciam ficar na
“semi-proteção” junto com todas as pessoas do mundo.
“Meu anjinho da guarda me proteja, proteja meu
pai, minha mãe, meus tios, minhas tias, meus irmãos, minha irmã, meus primos,
minhas primas, meus avós, a fulana, meus amigos e a todas as pessoas do mundo”.
Daqui pra frente, só de pensar em fazer minha oração eu já sentia um cansaço
antecipado. E como eu a fazia logo antes de dormir, era realmente penoso: eu
tinha muito sono, mas a proteção de toda aquela gente ainda dependia do meu
anjinho da guarda.
Por essa mesma época eu também comecei a perceber
que as pessoas morriam invariavelmente, apesar da minha oração. Fiquei
terrivelmente decepcionado, não conseguia acreditar que meu anjinho da guarda
pudesse falhar. Lembro bem de ter pensado (na busca de uma justificativa para
os deslizes do meu anjinho) que a proteção talvez só funcionasse se todas as
pessoas do mundo fizessem a minha oração antes de dormir. Imaginem se eu tivesse
me convencido disso pra valer, poderia ter criado uma nova religião!
E foi então que aos poucos eu fui cedendo cada
vez mais à preguiça e deixando de fazer minha pequena oração. O temor de que
alguém pudesse morrer pela minha omissão já não tomava conta de mim. “Vai
acontecer de qualquer jeito...”, eu pensava, todo triste. E estava assim até
que um dia simplesmente parei de fazer qualquer oração.
Hoje sinto falta do meu anjinho da guarda.
Recentemente, com os problemas da vida, tentei conversar um pouco com ele antes
de dormir, mas tive a estranha sensação de que ele não estava me escutando, de
que eu estava simplesmente pensando comigo mesmo. Percebi então que agora mais
do que nunca eu estava sozinho nesse mundão de meu Deus, e que se era pra acreditar
em algo, só me restava acreditar em mim. Logo eu, tão falho e incapaz de
proteger quem quer que seja nessa vida desvairada...
Parece que não sou muito diferente do meu anjinho da guarda.
Gabriel Coelho
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